Memórias vivas do jornalismo

Coordenadores: Carla Batista, Fernando António Correia

REfª: POCTI/COM/45955/2002

Palavras chave: Jornalismo, Jornalistas, História, Memória

- Cada vez mais mediatizados, expostos a afectos, críticas e condenações, os jornalistas continuam, no entanto, desconhecidos do grande público. O melhor conhecimento das praticas produtivas e do quotidiano destes profissionais ao longo do tempo, bem como dos sucessivos paradigmas que foram enquadrando a profissão, é essencial para ajudar a compreender as transformações e o perfil identitário que delas foi resultando.

Resumo

1. O principal objectivo do projecto é o estudo das práticas profissionais, das rotinas produtivas e do perfil profissional dos jornalistas portugueses de jornais diários de grande expansão, com base, fundamentalmente, na recolha de depoimentos de profissionais ainda vivos com actividade no período em análise, mas sem esquecer o apoio da (escassa) bibliografia existente.

A delimitação do período a estudar justifica-se pelo facto de constituir, historicamente, uma unidade bem marcada, e que dadas as suas características, nomeadamente no que respeita aos limites impostos à liberdade de expressão, induz também uma unidade correspondente no que se refere à história do jornalismo.

2. A identidade de uma profissão define-se num mais ou menos longo processo evolutivo, ao longo do qual vai incorporando e assimilando novas características, hábitos e valores, em íntima ligação com a própria evolução da sociedade em que se insere. Por isto mesmo, cada jornalismo, em termos nacionais, assume uma identidade própria. Se, em termos gerais, se pode falar de um jornalismo americano e de um jornalismo europeu, o certo é que, no nosso continente, as realidades de um país não são exactamente as mesmas das de outro.

No caso português, a profissão, tal como noutros, constituíu-se na segunda metade do século XIX, com a fase industrial, de que o Diário de Notícias de Eduardo Coelho surge como o primeiro grande expoente. Mas o percurso histórico atravessado no século XX, nomeadamente devido ao longo período da ditadura, emprestou-lhe características muito próprias que lhe deixaram marcas na identidade e que, em parte, ainda hoje perduram. Características essas que têm a ver com a ideologia e a cultura profissionais, e indissociáveis de aspectos como a inserção e a aprendizagem profissional (no quadro da chamada tarimba), as condições concretas de trabalho na sala de redacção, as rotinas produtivas, as relações laborais, etc.

Depois da investigação desenvolvida por José Tengarrinha e que, como se sabe, não vai além dos primeiros anos do século XX, não surgiu nenhum outro estudo que sistematizasse o período subsequente. O que existem são apenas estudos sectoriais, mesmo quando profundos, de natureza académica – teses de licenciatura, de mestrado e, em número muito reduzido, de doutoramento, assim como alguns trabalhos jornalísticos sobre temáticas específicas. Foram publicados alguns livros de memórias escritos por jornalistas, mas o seu interesse para o objecto do nosso estudo é geralmente escasso. O mesmo se pode dizer das diversas investigações sobre a censura, que constituem, aliás, o núcleo temático mais forte da bibliografia sobre a imprensa deste período.

3. A debilidade e escassez dos estudos sobre os media durante o período em análise, por um lado, e os objectivos e as orientações do nosso projecto, por outro, determinam, à partida, aquilo que pretendemos seja a sua natureza inovadora. A qual, porém, julgamos ser acentuada pelo facto de o principal objecto de estudo ser um aspecto praticamente nunca sujeito ao trabalho dos investigadores – o conteúdo e as características da prática profissional dos jornalistas, na perspectiva das rotinas produtivas e da caracterização da profissão no seu exercício quotidiano, assim como, consequentemente, da própria ideologia e cultura profissionais.